RESSURREIÇÃO versus REENCARNAÇÃO

Publicado: agosto 20, 2009 em IMAGENS

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Origem judaica versus origem pagã

 Embora Alan Kardec tenha dito que “a reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição”[i], isto não é verdade. A ressurreição, conforme crida pelos apóstolos, era uma exclusividade judaica e todas as vezes que foi apresentada ao povo de cultura helênica, foi recebida com grande estranheza.

Quando Paulo chega em Atenas e debate com os filósofos gregos, sua posição é primeiramente recebida com espanto: “E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele. Uns diziam: Que quer dizer este paroleiro? E outros: Parece que é pregador de deuses estranhos. Porque lhes anunciava a Jesus e a ressurreição” (At 17.18; grifo do autor). O apóstolo foi então levado ao Areópago, onde pôde fazer uma exposição maior acerca do cristianismo. Também nesta ocasião, a rejeição do conceito de ressurreição por parte de alguns ficou evidente: “E, como ouviram falar da ressurreição dos mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso te ouviremos outra vez” (At 17.32). Para alguns a ressurreição era um absurdo, para outros, uma novidade. Não era de modo algum semelhante ao conceito de metempsicose que já fora ensinado pelos pensadores gregos, entre eles Platão.

Entre os gregos, a idéia de transmigração de almas estava ligada principalmente aos chamados cultos órficos, geralmente envoltos por uma espessa nuvem de mitologia. Platão tratou do assunto em diversos dos seus diálogos, como na “República”, no “Fedro”, no “Menon”, no “Timeu” e nas “Leis”. Mas foi principalmente no “Fédon” que ele se deteve para uma exposição mais minuciosa. Alguns são de opinião de que ele reinterpretou de seu próprio jeito os conceitos existentes no orfismo e em Pitágoras.

No oriente, a transmigração de almas tornou-se o ponto central do hinduísmo. Tudo para um hindu gira em torno da doutrina de vidas sucessivas. O ciclo de morte e reencarnação era o que eles chamavam de roda da vida, o samsara. A situação de uma pessoa era considerada o resultado da vida anterior e sua posição em outra vida seria o resultado de sua vida presente. É o seu carma.

Entre os judeus, vestígios de idéias semelhantes só surgiram com Filo de Alexandria, que tinha uma forte influência platônica, e, posteriormente, na Cabala, herdeira do neoplatonismo.[ii] Nunca fizeram parte da ortodoxia judaica ou cristã baseada nas Escrituras vetéreo e neotestamentárias.

A maneira pela qual judeus e não judeus chegaram às suas crenças, são também distintas. Os judeus acreditavam na ressurreição porque essa havia sido revelada por Deus a eles por meio de seus profetas: “E agora pela esperança da promessa que por Deus foi feita a nossos pais estou aqui e sou julgado. À qual as nossas doze tribos esperam chegar, servindo a Deus continuamente, noite e dia. Por esta esperança, ó rei Agripa, eu sou acusado pelos judeus. Pois quê? Julga-se coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos? […] Mas, alcançando socorro de Deus, ainda até ao dia de hoje permaneço, dando testemunho, tanto a pequenos como a grandes, não dizendo nada mais do que o que os profetas e Moisés disseram que devia acontecer,  isto é, que o Cristo devia padecer e, sendo o primeiro da ressurreição dos mortos, devia anunciar a luz a este povo e aos gentios” (At 26.6-8, 22, 23 – grifo do autor).

Isto vem nos mostrar que a fé dos judeus recém convertidos ao cristianismo era uma fé bíblica, ou seja, fundamentava-se no fato de que havia um Deus nos céus que se revelou ao homem por meio de proclamações inspiradas.

Os gregos, todavia, baseavam sua crença no destino da alma humana em tradições antigas, conscientes de que isto era insuficiente para lhes dar verdadeira segurança. É interessante ver a colocação de Símias, um dos personagens do diálogo “Fédon”, de Platão. Assim disse ele: “É necessário pois, a este propósito fazer uma das coisas seguintes: não perder a ocasião de instruir-se, ou procurar aprender por si mesmo, ou então, se não for capaz nem de uma nem de outra dessas ações, ir buscar em uma de nossas antigas tradições humanas o que houver de melhor e menos contestável, deixando-se assim levar como sobre uma jangada, na qual nos arriscaremos a fazer a travessia da vida, uma vez que não a podemos percorrer, com mais segurança e com menos risco, sobre uma transporte mais sólido: quero dizer, uma revelação divina!” [iii](grifo do autor).

Também é curioso que a filosofia bramânica não ab-roga para si a infalibilidade de uma revelação divina, como aquela expressa na fórmula bíblica “Assim diz o Senhor”.  A filosofia hindu encontra-se originalmente exposta na chamada “literatura védica” ou Vedas, que se divide em três partes principais, sendo a mais antiga provavelmente os Upanishades. O término desta “literatura sagrada” é uma expressão de dúvida e não de certeza: “O que é esta Realidade? Este Uno e por que se deu este desdobramento na criação, é um mistério. Ko veda? “Quem sabe?”.[iv]

Deus, o Deus pessoal descrito nas páginas da Bíblia sabe e a revela ao homem para que este possa conhecer o caminho da verdade e da salvação. As Escrituras jamais se colocam como reflexão, como ponderação. Elas se afirmam como palavra de Deus revelada ao homem, advogando autoridade suprema no que diz respeito às questões espirituais: “Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus. As quais também falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as espirituais”. (1Co 2.10-13).

Esta é a primeira diferença existente com respeito à crença na ressurreição e na reencarnação. Enquanto a última se apóia em tradições, em mera cogitação do espírito humano, a primeira se coloca como a revelação de Deus para o próprio homem.

 


[i] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, p. 59, 1978.

[ii] Enciclopédia Britânica. Verbete metempsicose, Vol XV, p. 323, 1969.

[iii] PLATÃO. Fédon, São Paulo: Ediouro, p.102, 1986. 

[iv] TELES, Antonio Xavier. Introdução ao estudo da filosofia.  São Paulo: Ática, p. 41, 1991.

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comentários
  1. ANGEL disse:

    Jota Bê…Há muitos mistérios sobre este assunto. Embora nem saiba muito…Acredito no que se encontra escrito na Bíblia. Parabéns! O seu Blog está rico!!

    APOCALIPSE

    Nos quatro cantos do mundo
    Há perfeitos anjos à espera
    Espreitando expectadores
    Dessa esfera chamada Terra.
    Aguardam por hora
    Hora de ser chegada a hora.
    O fogo sagrado
    Hoje embebido de piedade
    Perdoa a má intensão;
    Os desabores, os cruéis,
    Qualquer ruim pensamento…
    Outros e outros pecados.
    Mas a expectativa
    Mora na escrita pena
    Da mão de Deus.
    Os anjos segundo o seu mando,
    Setas de labaredas, enviarão
    Sob olhos dos que temerão.
    Ao caos entre nos, ressurgirá…
    Tão somente real, o salvador
    Aquele que tem o poder
    Do julgo, da seletiva dos justos.
    E o portanto sendo a certeza
    Do agora e assim sempre…
    O amor vitorioso será coroado.
    Sê então o amor vivo
    Que na fé serás absolvido…
    Assim como o princípio, será o fim!

    -Clécia-

    Obs:Aqui um poema inspirado nas visões
    do apóstolo João em Patmos, onde escreveu o capítulo
    o Apocalípse..Um livro complexo para o meu entendimento
    de poetisa.

  2. Gabriel disse:

    A reencarnação é mais límpida que um cristal, só não vê quem não quer ou porque tem medo!
    *O*

  3. Gustavo disse:

    “Esta é a primeira diferença existente com respeito à crença na ressurreição e na reencarnação. Enquanto a última se apóia em tradições, em mera cogitação do espírito humano, a primeira se coloca como a revelação de Deus para o próprio homem.”
    CREIO Q A AUTORA SE EQUIVOCOU EM MUITOS COMENTÁRIOS. É NÍTIDO A POSIÇÃO ORIGINAL DA AUTORA EM DEFENDER AS ESCRITURAS BÍBLICAS COMO ELA É INTERPRETADA E MOSTRADA HOJE, SEM UMA ANÁLISE MAIS PROFUNDA DAS ANTIGAS RELIGIÕES E CULTURA. A REENCARNAÇÃO FOI REVELADA E EXPLICADA POR QUASE TODOS OS MESTRES DA ÍNDIA ANTIGA, MUITOS A IMAGEM DE DEUS, COMO RAMA, KRISHNA. GOVINDA, BUDA….OU SEJA, NÃO É COMO FOI DITO “Enquanto a última se apóia em tradições, em mera cogitação do espírito humano”, ENTÃO. MUITO DESTES MESTRES QUE FORAM CHAMADOS DE “AVATARES DE VISHNO”, SENDO VISHNO UMA DAS VÁRIAS DENOMINAÇÕES DE DEUS ABSOLUTO NA VISÃO HINDU. ESTES MESTRES FALAVAM COMO SE FOSSEM O PRÓRIO DEUS Q FALAVA ATRAVÉS DELES. A IMAGEM DE JESUS COMO SENDO A PRÓRIA IMAGEM DE DEUS, FOI TIRADA DA IMAGEM Q OS INDIANOS TINHAM DESTES MESTRES ESPECIAIS, Q FORAM PREPURSORES DA VERDADE, E Q TROUXERAM A VISÃO MONOTEÍSTA E DE UNICIDADE DE TODAS AS COISAS NO HINDUÍSMO, DIFERENTE DA VISÃO POLITEÍSTA. ENTÃO, EU SINTO UM PROFUNDO PESAR DESSAS PESSOAS Q GOSTAM DE DÁ PALPITE COMO SE SOUBESSE DAS COISAS. LAMENTÁVEL

  4. Eguinaldo Hélio de Souza disse:

    Prezado Gustavo,

    Em seu comentário você está apenas colocando o contexto hebraico dentro do contexto hindu. O que o texto quer justamente mostrar é o contraste entre a ideia judaica de ressurreição e as ideias correntes em meio a cultura greco-romana, onde nasce o cristianismo. Pela atitude demonstrada por aquela cultura diante das exposições do apóstolo Paulo referente a ressurreição, vê-se que não eram ideias semelhantes e sim contrastantes. A finalidade inicial do artigo é justamente mostrar que ambas não são sinônimas. Afirmar que os judeus ou cristãos derivavam seus conceitos da cultura hindiana não faz sentido algum. Aliás, o próprio conceito de Deus mantida pela cultura cristã-judaica é contrastante com a da cultura hindu. Enquanto na primeria Deus é o Criador e transcede sua criação, na segunda não há distinção entre criador e criatura. Portanto, essas ideias antogonicas não podem ser reconciliadas

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